Japoneses de origem, brasileiros no campo

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Com uma das maiores comunidades nipo-brasileiras do país, Campo Grande reúne histórias de moradores de como conciliam as raízes familiares com a paixão pela Seleção Brasileira.

A partida entre Brasil e Japão, marcada para a próxima segunda-feira (29), às 14h (horário de Brasília), promete mobilizar torcedores muito além das quatro linhas. O duelo, válido pelos 16 avos de final da Copa do Mundo, será disputado no NRG Stadium, em Houston, nos Estados Unidos, e desperta um sentimento especial em Campo Grande, cidade que reúne uma das maiores comunidades de descendentes de japoneses do país.

Enquanto a bola não rola, a expectativa cresce entre famílias que carregam a herança japonesa e mantêm vínculos com as duas culturas. Em Mato Grosso do Sul, onde vivem aproximadamente 30 mil descendentes de imigrantes japoneses, muitos se dividem entre o apoio à seleção brasileira e o carinho pelas origens da família, tornando o confronto ainda mais simbólico.

A relação histórica entre o Estado e o Japão ganhou destaque recentemente com as celebrações do Dia da Imigração Japonesa no Brasil, lembrado em 18 de junho. Campo Grande concentra cerca de 12 mil descendentes e abriga uma das mais expressivas comunidades nipônicas em território brasileiro, consolidando Mato Grosso do Sul como a terceira maior colônia japonesa do país, conforme dados da Agência Brasil divulgados em 2023.

Diante desse cenário, a reportagem do O Estado conversou com descendentes de japoneses que vivem em Campo Grande e também com pessoas nascidas no Japão que escolheram o Brasil para morar. O objetivo é entender como esses moradores encaram o encontro entre as duas seleções e descobrir se, diante do apito inicial, o coração consegue escolher apenas um lado.

O amor a seleção

Andrella Ayumi Okata dos Santos, de 28 anos, nasceu no Japão, mas vive em Campo Grande desde a infância. Apesar das raízes japonesas, ela afirma que construiu sua identidade no Brasil e se reconhece como brasileira. Ainda assim, conta que, em algumas situações, sente que sua trajetória entre os dois países desperta questionamentos sobre pertencimento, especialmente quando as pessoas associam automaticamente sua origem à nacionalidade japonesa.

“Nunca tive uma crise de identidade muito forte, porque cresci com a cultura brasileira e é ela que predomina na minha vida, mesmo com algumas tradições japonesas dentro da família. Às vezes, quando perguntam de onde eu sou, fico sem saber como responder. Nasci no Japão, mas moro no Brasil há mais de 20 anos e me considero brasileira. No jogo entre Brasil e Japão, o coração fica dividido. Vou torcer pelo Brasil, mas não consigo torcer contra o Japão. Se o Brasil vencer, vou comemorar, mas vou sentir pelo Japão. E, se acontecer o contrário, também vou ficar feliz por eles e triste pelo Brasil”.

Victor Kawano Molinari, descendente de japoneses de quarta geração, estudante de Jornalismo da UFMS, conta que cresceu cercado por referências da cultura japonesa, preservadas principalmente pela convivência familiar. Apesar da forte ligação com as raízes da família, ele afirma que o nascimento e a vivência no Brasil fazem com que a escolha pela Seleção Brasileira seja natural, mesmo diante do sentimento de tristeza pelo Japão enfrentar o adversário tão cedo na competição.

“Em toda Copa do Mundo eu digo que vou torcer pelos dois. Minha mãe estava morando no Japão quando ficou grávida de mim, então sempre cresci muito próximo da cultura japonesa e, todos os anos, visito meus parentes de lá. Confesso que não queria que esse confronto acontecesse agora, porque fico com um pouco de pena do Japão”, destaca.
Ele acredita que a partida desperta diferentes sentimentos entre os descendentes de japoneses que vivem em Campo Grande, cidade marcada pela forte presença da comunidade nipônica. Ainda assim, afirma que sua identidade brasileira prevalece quando a bola rolar.

“Esse confronto representa muito para mim, porque existe um sentimento de divisão. Acho que isso acontece com muitos descendentes de japoneses que vivem em Campo Grande, onde a cultura japonesa é muito presente, e certamente tem gente que vai torcer mais pelo Japão. No meu caso, porém, o lado brasileiro fala mais alto. Foi aqui que eu nasci, cresci e me formei como pessoa. Continuo valorizando muito a cultura dos meus antepassados, mas espero que, nas próximas Copas, Brasil e Japão demorem mais para se encontrar”.

Dupla nacionalidade

Lucas Yuuki Oshiro, professor de língua japonesa, possui dupla nacionalidade e viveu no Japão até os 11 anos, quando se mudou para o Brasil. Hoje, à frente da escola @JapMind, ele afirma que a ligação com os dois países faz parte da sua história, mas revela que a paixão despertada pelo futebol brasileiro ainda na infância definiu sua escolha para o confronto entre as seleções.

“Vou torcer para o Brasil. Essa decisão vem de uma lembrança muito marcante da infância, quando assisti pela primeira vez a um jogo do Kaká, que vivia um dos melhores momentos da carreira. O jeito como ele jogava era simplesmente deslumbrante e fez com que eu me apaixonasse ainda mais pelo futebol. Desde então, minha torcida sempre ficou com a Seleção Brasileira”.

Ao analisar o encontro entre Brasil e Japão, Lucas prefere enxergar o duelo sob uma perspectiva cultural. Para ele, mais do que uma divisão de torcidas, a partida representa o encontro de duas nações que construíram uma relação histórica marcada pela troca de experiências, preservando identidades diferentes, mas unidas pela paixão pelo futebol.

“Não diria que existe um conflito, mas sim a oportunidade de ver duas culturas distintas se encontrando dentro de campo. Isso aparece na forma de jogar, nas características dos atletas e até no perfil das torcidas. Apesar das diferenças, todos compartilham a mesma paixão pelo esporte. Quando um jogador representa o seu país com dedicação, isso emociona. E, fora das quatro linhas, Brasil e Japão mantêm uma relação de mais de um século, marcada por aprendizado, intercâmbio cultural e contribuições mútuas”.

Do lado de lá

Segundo dados do Ministério da Justiça, o Japão possui 210.014 brasileiros, conforme censo realizado em 2025. Aichi e Shizuoka são considerados os ‘corações’ do Brasil no Japão, mas também há grande concentração de ‘verde e amarelo’ nas cidades de Ibaraki, Gunma, Kanagawa, Fukui, Aichi, Gifu, Mie, Shizuoka e Shiga.

Em 5 de novembro de 1895, o Tratado de Amizade, Comércio e Navegação entre o Japão e o Brasil foi assinado em Paris, estabelecendo relações diplomáticas entre os dois países. No ano de 2025, foi comemorado o 130º aniversário do estabelecimento das relações diplomáticas formais entre o Japão e o Brasil, o que demonstra o crescimento do intercâmbio em diversos campos, incluindo na economia e cultura.

Um desses brasileiros ‘do lado de lá’ é o jornalista Silvio Mori. Campo-grandense, ele mora há mais de dez anos nas terras de seus antepassados, com uma longa trajetória em rádios, programas de televisão e portais, como correspondente internacional, cobrindo os principais fatos da Ásia.

Com vasta experiência em coberturas de impacto, destacou-se na transmissão das Olimpíadas de Tóquio (Record TV) e em momentos históricos como o Entronamento do Imperador, a morte de Shinzo Abe e a visita oficial do Presidente do Brasil ao Japão (TV Cultura e Rede Brasil). Além de sua atuação em grandes redes, produz reportagens especiais e análises para diversos veículos de imprensa do Brasil.
Para o jornal O Estado, ele revela que os colegas brasileiros estão ansiosos para o jogo. “Conversando com meus colegas, eles estão na expectativa e divididos”, relata.
Além disso, nem o horário irá espantar os torcedores, segundo Silvio. Cabe lembrar que, em Mato Grosso do Sul, o jogo será transmitido às 13h (14h no horário de Brasília) e às 2h da madrugada no Japão.
“O Japão vem se destacando nas últimas Copas do Mundo e sempre tiveram o Brasil como inspiração, como o ‘País do Futebol’”.

 

Por Amanda Ferreira e Carolina Rampi

 

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