‘Na onda’: produtos com embalagens temáticas da Copa registram alta de até 70% nas vendas

FOTO: NILSON FIGUEIREDO
FOTO: NILSON FIGUEIREDO

Itens ganham versões especiais em uma estratégia que movimenta US$ 10,5 bilhões em publicidade durante o torneio

Nem sempre o produto é o principal atrativo. Em Campo Grande, consumidores já compram refrigerantes pelas figurinhas, disputam itens colecionáveis e levam para casa produtos inspirados na Copa do Mundo de 2026. O movimento elevou em até 70% as vendas de artigos temáticos em estabelecimentos da Capital.

A movimentação acompanha uma estratégia adotada por grandes marcas em todo o mundo. Um relatório da Warc Media aponta que a Copa deve movimentar US$ 10,5 bilhões em publicidade global durante o trimestre em que o torneio ocorre.

Mais do que vender produtos, as empresas buscam associar suas marcas ao sentimento coletivo provocado pelo futebol. Neste ano, fabricantes apostaram em embalagens especiais, séries limitadas, colecionismo e o engajamento dos torcedores.

No Hyper Festas, a estratégia já mostra resultados. Entre os itens que ganharam identidade visual inspirada na Copa estão tintas spray para cabelo nas cores da bandeira brasileira, com embalagens estampadas por imagens de jogadores.

Segundo o gerente da loja, Valerian Soares, os produtos chegaram ainda no início do ano, mas a procura começou a ganhar força nas últimas semanas. “A gente recebeu esses produtos lá por fevereiro e começou a expor depois da Páscoa. Agora, com a proximidade dos jogos, a procura aumentou bastante”, relata.

De acordo com ele, a venda dos itens temáticos cresceu entre 60% e 70% desde que começaram a ser expostos em destaque na loja. “A gente nem estava colocando muita fé no começo, mas agora teve um aumento muito grande. Bandeiras, adereços do Brasil e as tintas para cabelo estão saindo muito. Tem produto que estava com a prateleira cheia e praticamente acabou.”

O crescimento da demanda é tão intenso que alguns fabricantes já enfrentam dificuldades para repor os estoques. “As próprias fabricantes não estão conseguindo atender toda a demanda. Tem produto que a gente está tentando repor e não consegue mais”, afirma.

Segundo Valerian, muitos consumidores já chegam ao estabelecimento procurando especificamente itens ligados ao Mundial. “Eles já vêm atrás dos produtos da Copa. Procuram bandeiras, acessórios do Brasil e tudo o que remete ao torneio.”

Uma impressora 3D e a oportunidade

Se as grandes empresas apostam em campanhas milionárias, pequenos comerciantes também encontraram oportunidades para faturar. No Mercadão Municipal, a empresária Karoline Betone transformou a Copa em uma oportunidade de inovação.

Proprietária da Banca da Gleice, ela investiu recentemente em uma impressora 3D e passou a produzir artigos personalizados inspirados no Mundial. Entre os produtos estão copos em formato da taça da Copa do Mundo, porta-figurinhas, suportes temáticos para tereré e peças decorativas com referências à Seleção Brasileira.

“A gente comprou a máquina há cerca de dois meses e começou a produzir esses itens. Coloca para vender e praticamente sai no mesmo dia”, conta.

O investimento rapidamente trouxe retorno. Segundo Karoline, as vendas cresceram cerca de 70% desde o lançamento da linha temática. “Quando começou essa movimentação da Copa e saíram as convocações, a procura aumentou muito”.

Os preços variam entre R$ 45 e R$ 100, dependendo da peça. Entre os campeões de procura estão os porta-figurinhas produzidos na impressora 3D. “A gente percebe que as pessoas gostam de ter algo diferente relacionado à Copa.”

A empresária acredita que a demanda pode aumentar ainda mais à medida que a Seleção Brasileira avance na competição. “Se o Brasil for ganhando e passando de fase, o pessoal fica ainda mais empolgado”.

Quando a embalagem vira protagonista

Na Chiparia e Espetinho do Serginho, o diferencial está em uma ação promocional da Coca-Cola. Algumas garrafas de 600 ml passaram a ser comercializadas com figurinhas colecionáveis relacionadas à Copa.

Segundo o comerciante Sérgio, o interesse dos consumidores tem surpreendido. “Tem gente que nem quer consumir o refrigerante. Compra só por causa da figurinha.”

Apesar do brinde, o preço permanece o mesmo, o que torna a ação ainda mais atrativa para os consumidores. “A venda aumenta e o preço não muda. Tem criança que vem procurar especificamente por causa da figurinha.”

No setor de alimentação, o clima do Mundial também começa a aparecer nas estratégias promocionais. Na Dale Sorvetes, a expectativa é que a decoração temática da loja e as ações especiais estimulem o consumo durante o torneio.

Entre os produtos estão picolés que homenageiam países classificados, com sabores como doce de leite da Argentina, creme catalana da Espanha, creme brûlée da França, cups da Inglaterra e caipirinha do Brasil.

“O pessoal já está perguntando bastante. O material promocional chama atenção e a expectativa é que a procura aumente quando os jogos começarem”, afirma a operadora Geovana Isabel.

A loja também lançou uma promoção que oferece um quinto picolé gratuitamente para clientes que adquirirem quatro unidades da linha temática.

Marketing e paixão pelo futebol

Para especialistas, o fenômeno vai muito além do futebol. A economista especialista em comportamento Andreia Saragoça explica que as empresas utilizam eventos de grande alcance emocional para potencializar o consumo.

“Eles observam o comportamento das pessoas e trabalham isso com maestria. A Copa cria um ambiente em que todo mundo está falando da mesma coisa, acompanhando os mesmos eventos e compartilhando emoções.”

Segundo ela, elementos como exclusividade, escassez e colecionismo têm forte influência sobre a decisão de compra. “A ideia de ter algo limitado ou colecionável é muito poderosa. Existe uma sensação de pertencimento e de diferenciação. O marketing entendeu muito bem esse mecanismo.”

Andreia destaca que embalagens comemorativas e edições especiais funcionam porque capturam a atenção do consumidor justamente quando o tema domina as conversas e o cotidiano.
Na avaliação do mestre em Economia Eugênio Pavão, grandes eventos esportivos influenciam diretamente o comportamento econômico porque ativam fatores emocionais ligados à identidade nacional, ao entretenimento e à memória afetiva.

“Os grandes eventos têm capacidade de influenciar as decisões econômicas das pessoas por empatia, pertencimento e comportamento coletivo. Além disso, existe o saudosismo, o envolvimento emocional com o futebol e a influência da publicidade.”

Segundo ele, o mercado consumidor da Copa tornou-se ainda mais amplo ao longo das últimas décadas, alcançando diferentes perfis de público. “As empresas entenderam que existe um público fiel para produtos colecionáveis e edições limitadas. Ao mesmo tempo, há consumidores que compram por impulso ou pelo desejo de participar daquele momento.”

Seja por nostalgia, colecionismo, paixão pelo futebol ou simples desejo de entrar no clima da competição, a Copa mostra mais uma vez sua capacidade de movimentar não apenas os estádios, mas também o comércio. E, para muitas empresas, uma embalagem diferente pode valer tanto quanto o próprio produto.

Por Djeneffer Cordoba

 

Acesse as redes sociais do Estado Online no Facebook Instagram

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *