“Não sabemos, não temos ideia do que aconteceu com eles.” A declaração da venezuelana Estefany Cazorla, de 29 anos, resume a apreensão vivida por imigrantes venezuelanos em Campo Grande após os terremotos que atingiram a Venezuela nesta quarta-feira (24). Enquanto alguns conseguiram contato com familiares, outros seguem sem notícias de parentes que vivem nas áreas mais afetadas pelos tremores, situação agravada pela distância e, em muitos casos, pela perda de contato durante o processo migratório.
Na Casa Resgate, instituição que acolhe migrantes e pessoas em situação de vulnerabilidade na Capital, a quinta-feira (25), foi marcada por orações, mensagens trocadas pelo celular e tentativas de contato com familiares que permaneceram no país vizinho.
Em Mato Grosso do Sul vivem cerca de 12 mil venezuelanos e, somente em Campo Grande, a comunidade é estimada em aproximadamente cinco mil pessoas, segundo a Associação Venezuelana no Estado. Entre eles, o sentimento é semelhante: acompanhar a tragédia à distância e esperar por notícias de quem ficou do outro lado da fronteira.
Os tremores atingiram a região costeira da Venezuela. O mais forte deles teve magnitude 7,5 e foi registrado próximo à cidade de El Guayabo, a cerca de 160 quilômetros de Caracas. Minutos antes, outro terremoto, de magnitude 7,2, havia sido registrado na mesma região.
Sem notícias de parte da família
Há apenas quatro dias no Brasil, Estefany tenta recomeçar a vida ao lado do marido e dos dois filhos. Enquanto busca se adaptar à nova realidade em Campo Grande, carrega a preocupação com os familiares que permaneceram na Venezuela.
Ela conta que soube dos terremotos por meio de parentes que vivem no oeste do país. Apesar do susto, eles conseguiram informar que estavam bem. A situação, porém, é diferente para familiares que moram próximos à capital venezuelana, região onde os tremores foram mais intensos.
“Os parentes que vivem no ocidente do país conseguiram entrar em contato e disseram que estão bem. Mas os familiares que moram na capital, onde o terremoto foi mais forte, ainda não conseguimos localizar. Não sabemos o que aconteceu com eles”, relata.
Segundo Estefany, familiares que sentiram os tremores descreveram momentos de medo e desespero, principalmente por se tratar de uma situação incomum no país. “Na Venezuela isso não é normal. Eles sentiram as réplicas e ficaram muito assustados. Alguns contaram que, por causa do medo, tiveram dificuldade até para sair de casa. Agora existe o receio de que aconteça um novo terremoto, ainda mais forte”.
A venezuelana também teme que o número de vítimas seja maior do que o divulgado até o momento. “Estamos esperando mais informações. Não sabemos quantas pessoas ainda podem estar sob os escombros. É uma dor muito grande para nós, não apenas pelas nossas famílias, mas pelo país inteiro”.
Estefany afirma que alguns parentes afetados pela tragédia já manifestaram interesse em deixar a Venezuela e buscar uma nova oportunidade no Brasil. Apesar das dificuldades enfrentadas durante a migração, ela diz que pretende permanecer no país. “Quero construir minha vida aqui. Gosto do Brasil, me sinto acolhida. Tirando o idioma, encontro muitas semelhanças com a Venezuela. Me sinto em casa”.
“A preocupação não é só com a minha família, mas com todo o país”
Se Estefany representa os venezuelanos que aguardam notícias de parentes, Reyanyelys Roberto, de 19 anos, conseguiu contato com a família, mas nem por isso deixou de sentir os reflexos da tragédia.
Há cerca de um mês em Campo Grande, a jovem vive ao lado do filho, dos pais e do irmão. Avós, tios, tias e outros parentes permanecem na Venezuela. Os familiares vivem na região oriental do país, onde os impactos foram menores do que os registrados na capital, mas os tremores também foram sentidos.
“Na região onde minha família mora não foi tão forte quanto na capital, mas as réplicas foram sentidas. Houve movimentações fortes, algumas estruturas sofreram danos e muitas pessoas ficaram assustadas”, relata.
Segundo ela, além do medo provocado pelos tremores, os moradores enfrentam dificuldades causadas pela interrupção de serviços básicos. “Minha família contou que houve apagões e que muitas pessoas estão assustadas. Mesmo longe da área mais afetada, todos ficaram muito preocupados”.
Apesar do alívio por conseguir falar com os parentes, a distância continua sendo motivo de sofrimento. “Ficamos mal porque estamos aqui e eles estão lá. A preocupação não é apenas com a minha família, mas com todo o país e com as pessoas que foram atingidas”.
Ela também demonstra preocupação com as vítimas que ainda aguardam resgate. “Há pessoas feridas e outras que ainda podem estar sob os escombros. Isso nos deixa muito tristes porque sabemos das dificuldades que o país enfrenta”.
Quando a tragédia atravessa fronteiras
A assistente social Daniela Argueiro Santana acompanha há quase cinco anos a rotina de migrantes acolhidos pela Casa Resgate. Segundo ela, os venezuelanos representam cerca de 90% do público atendido pelas duas unidades da instituição, que juntas abrigam aproximadamente 170 pessoas.
Com a notícia dos terremotos, a preocupação tomou conta dos acolhidos. “Quando cheguei pela manhã, vários já estavam mostrando as imagens do que aconteceu. Alguns não conseguem falar com a família e estão muito abalados”, relata.
Segundo Daniela, a emoção ficou evidente durante um momento de oração realizado antes do almoço. “Tivemos uma assistida que chorou porque não conseguia contato com os familiares. Nós oferecemos internet e ajudamos no que é possível, mas muitos continuam sem notícias e ficam muito preocupados”.
Ela explica que a dificuldade de comunicação nem sempre começou após os terremotos. Muitos migrantes perdem celulares, documentos e pertences durante a viagem até o Brasil.
“Muitos chegam aqui apenas com a roupa do corpo. São pessoas que passaram por roubos, perderam documentos e, muitas vezes, já estavam sem contato com parte da família. Quando acontece uma tragédia como essa, a angústia aumenta ainda mais”.
A maioria dos acolhidos chega ao Brasil após meses de viagem, muitas vezes caminhando e pegando caronas em busca de melhores condições de vida. “Eles não vêm porque querem sair do país. Vêm em busca de um futuro melhor. Muitos deixam para trás filhos, pais, irmãos e outros familiares”.
Faça sua doação
Além do acolhimento, a instituição auxilia os migrantes na regularização documental, acesso aos serviços de saúde e reconstrução dos vínculos familiares. Daniela destaca que a solidariedade da população também é fundamental para ajudar quem está recomeçando a vida no país.
“Recebemos doações de roupas, colchões, utensílios domésticos, mochilas e diversos outros itens. Para quem chega sem nada, qualquer ajuda faz diferença e representa um novo começo.”
As doações podem ser entregues diretamente nas unidades da Casa Resgate. Segundo a assistente social, a necessidade é constante devido à alta rotatividade de migrantes acolhidos pela instituição.
Por Geane Beserra
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