Qual é o sentido de revirar o baú das memórias e escrever sobre os tesouros que ficaram esquecidos em suas dobras e fissuras?
Talvez seja uma tentativa de ordenar os acontecimentos vividos e testemunhados para entender melhor os mistérios do tempo presente. Ou talvez seja apenas uma forma de registrar o olhar e o ouvir de alguém que viu, ouviu e viveu eventos que marcaram a história de um local. Mas olhar para o passado não é uma atividade neutra, pois buscamos, com os olhos de hoje, espanar as névoas do esquecimento e acabamos interpretando e selecionando, inconscientemente, o que vale apena ser lembrado – ou esquecido.
Nasci em Campo Grande, quando ainda éramos mato-grossenses. Mato Grosso do Sul foi desmembrado de Mato Grosso em 1977, em plena ditadura militar.
O ato de criação surpreendeu a todos e, de alguma forma, atendeu aos desejos antigos das elites da região, tendo sido comemorado com euforia popular nas ruas da então futura capital Campo Grande.

Imagem Arquivo
O que lembramos aqui aconteceu quase dois anos depois. São fragmentos das festividades de marcaram a instalação do estado em 1o. de janeiro de 1979.
Além dos atos oficiais de posse do governador designado por Ernesto Geisel (Harry Amorim Costa, gaúcho e funcionário do Departamento Nacional de Obras e Saneamento, que na época não residia aqui), dos desembargadores do Tribunal de Justiça e dosdeputados da Assembléia Constituinte ocorridos no Teatro Glauce Rocha, dois eventos festivos marcaram a ocasião.

A festa no Morenão
O primeiro foi no próprio dia 1o. de janeiro, no final da tarde, no estádio Morenão, com a presença das autoridades recém-empossadas e um público que lotou as arquibancadas do local. Me lembro da entrada dos cantores do então denominado Coral Universitário, dirigido pelo regente alemão Peter Ens, na época residindo em Campo Grande.
O coral entrou em fila, com suas becas verdes pelo gramado, até se instalar em um pequeno estrado no meio do campo. Ao mesmo tempo, os músicos da Banda da 9a. Circunscrição Militar se posicionavam para a execução do Hino Nacional. Infelizmente, as vozes do coral não puderam ser ouvidas porque aparentemente não havia sistema de captação de som e amplificação.
Depois do hasteamento das bandeiras e dos discursos protocolares, veio a grande atração da festa: mais de uma centena de integrantes da Escola de Samba Beija-Flor de Nilópolis, vindos do Rio de Janeiro exclusivamente para um desfile pelas pistas nas laterais do gramado do Morenão.
A Beija-Flor havia sido a campeã do carnaval do Rio de Janeiro por três anos consecutivos e trouxe para Campo Grande parte do desfile vencedor do ano anterior, cujo enredo foi “A criação do mundo na tradição Nagô”. Ritmistas, passistas, mestre-sala e porta-bandeira vestiam os exuberantes e luxuosos figurinos e adereços idealizados por Joãozinho Trinta. O ícone maior da escola também estava presente: Pinah, a escultural integrante símbolo dos carnavais da agremiação de Nilópolis.
Não sei dizer se as escolas de samba locais (Unidos da Vila Carvalho, Igrejinha e Catedráticos do Samba) foram de alguma forma envolvidas nessa visita da Beija-Flor, nem que critérios nortearam a programação dessa festa popular. Mas é inegável que, apesar do brilho e do valor dos sambistas cariocas, a escolha da atração principal pode ser lida como uma tentativa de inserção simbólica do novo estado em um projeto nacionalista que tem no samba carioca um dos mais difundidos símbolos da musicalidade brasileira.
Uma noite de gala no Glauce Rocha
Na noite seguinte, dia 2 de janeiro, o Teatro Glauce Rocha recebeu a segunda parte da festividade de instalação de Mato Grosso do Sul: um concerto de gala com a Orquestra Sinfônica Nacional.

Programa oficial do Concerto de Gala realizado no Teatro Glauce Rocha em 2 de janeiro de 1979, durante as comemorações de instalação de Mato Grosso do Sul. (Acervo pessoal)
O teatro estava lotado por um público ansioso por assistir uma grande orquestra vinda especialmente do Rio de Janeiro para a ocasião.
Enquanto os músicos entravam pela platéia com seus trajes pretos e gravatas borboletas, eis que entra um grupo de homens carregando o velho piano de 1/4 de cauda que era levado para todo lado quando se organizava um recital de música erudita na cidade. Ninguém sabia dizer exatamente a quem pertencia aquele piano, mas devido seu aspecto cansado, gasto e algo judiado, era jocosamente apelidado de “piano da vida”.
Assim que o piano foi colocado no palco, o concerto começou. Não houve tempo para fazer qualquer afinação. A orquestra, regida pelo renomado maestro paranaense Alceo Bocchino começou com o Hino Nacional Brasileiro, seguido pela primeira audição do novo Hino de Mato Grosso do Sul. Música de autoria do compositor gaúcho Radamés Gnattali, teve sua letra feita a quatro mãos por Jorge Antonio Siufi e Otávio Gonçalves Gomes.
O Coral Universitário, improvisadamente instalado nas primeiras filas do teatro e de costas para a
platéia, se esforçou para cantar, mas o volume da orquestra impediu que as vozes fossem ouvidas.
O programa seguiu com a exuberante abertura da ópera O Guarani, de Carlos Gomes (embora no programa impresso anunciasse a abertura da ópera Fosca). Em seguida, o violoncelista carioca Alceu Reis solou o Concerto n. 1 em lá menor do compositor francês Camille Saint-Saens. Após um breve intervalo, José Carlos Cocarelli, jovem pianista carioca premiado em concursos internacionais, tocou o Concerto em lá menor op. 16 do compositor norueguês Edward Grieg.
Encerrando o concerto, a abertura- fantasia Romeu e Julieta, do compositor russo Pyotr Ilyich Tchaikovsky. Com exceção dos dois hinos, um programa padrão de salas de concerto com repertório romântico do século
XIX.
Memória e lembrança
A participação de músicos locais, até onde me lembro, resumiu-se à Banda Militar (no Morenão) e ao Coral Universitário (no Morenão e no Glauce Rocha) que, por questões técnicas, não pode ser ouvido em nenhuma das duas ocasiões.
É possível que tenha me esquecido de alguma coisa nesse relato, mas até onde me lembro, os primeiros sons oficiais ouvidos em Mato Grosso do Sul foram esses. Isso não quer dizer que uma intensa atividade musical não estivesse fervilhando desde muitos, muitos anos antes, nos campos, nas cidades e nas fronteiras. Mas isso é assunto para depois.
Por hora, citamos a frase da professora Ecléa Bosi, garimpada de seu livro Memória e Sociedade: Lembranças de Velhos: “a memória é um cabedal infinito do qual só registramos um fragmento”.
Por Evandro Higa
Quem é Evandro Higa?
Professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, pesquisador e músico, Evandro Higa é doutor em Música e um dos principais estudiosos da história musical de Mato Grosso do Sul. Seu trabalho reúne pesquisas sobre memória, patrimônio cultural e a trajetória da música no Estado, contribuindo para a preservação de episódios e personagens que marcaram a formação da identidade sul-mato-grossense.