O confronto entre Brasil e Japão nesta segunda-feira (29), às 13h (horário de MS), pelos 16 avos de final da Copa do Mundo, promete mexer não apenas com os torcedores apaixonados por futebol, mas também com milhares de descendentes de japoneses espalhados pelo país. Em Campo Grande, cidade que abriga a terceira maior comunidade nipo-brasileira do Brasil, o duelo coloca frente a frente duas identidades que convivem há gerações dentro de muitas famílias.
O sentimento de pertencimento dividido é resultado de uma história iniciada há mais de um século, quando os primeiros imigrantes japoneses chegaram ao Brasil em busca de novas oportunidades. Desde então, seus descendentes ajudaram a construir comunidades fortes, preservando tradições, costumes e laços afetivos com a terra dos antepassados, sem deixar de formar uma identidade profundamente brasileira.
Esse equilíbrio entre duas culturas também aparece quando a bola começa a rolar. Embora a maioria dos descendentes declare apoio à Seleção Brasileira, cresce o orgulho em acompanhar a evolução do futebol japonês, que deixou de ser apenas um participante para se tornar uma equipe competitiva no cenário internacional.
O desenvolvimento do futebol japonês ganhou força a partir da criação da J-League, em 1993, campeonato profissional que marcou uma mudança estrutural no esporte no país. A competição contou com nomes históricos do futebol brasileiro, como Zico, que se tornou ídolo do Kashima Antlers e ajudou a impulsionar a popularização da modalidade no Japão.
O investimento nas categorias de base, o planejamento de longo prazo e a formação de atletas fizeram com que a seleção japonesa passasse a disputar Copas do Mundo em alto nível e conquistasse resultados cada vez mais expressivos.
Entre duas bandeiras, mas uma só torcida

Crédito: Nilson Figueiredo
Na Feira Central de Campo Grande, onde a influência da cultura japonesa está presente na gastronomia e no cotidiano de muitos comerciantes, o sentimento é praticamente unânime: o coração até balança, mas a torcida será pelo Brasil.
Neta de imigrantes vindos de Okinawa, a comerciante Jade Celia Tamashiro, de 62 anos, admite que o confronto desperta emoções especiais.
“Meus descendentes e meus antepassados são japoneses. Eu sou brasileira. Vou torcer pro Brasil. Vou ficar dividida, mas vou torcer pro Brasil. O Japão está jogando bem, mas o Brasil já foi campeão várias vezes. Vou torcer para o nosso Brasilzão.”
Para ela, o futebol também virou motivo de encontro entre gerações. Se, na infância, os pais estavam dedicados ao trabalho na agricultura e pouco acompanhavam o esporte, hoje são os netos que alimentam a paixão pelas partidas.
Na hora do jogo, a família já tem programação definida.
“Meus dois netos já programaram comigo: segunda-feira nós vamos fazer uma carninha. Eles falaram que eu só assisto, eles vão cozinhar para mim. Vamos fazer uma carne, um arrozinho e assistir ao jogo juntos”, conta.
O palpite da comerciante é otimista: vitória brasileira por 2 a 1.
O comerciário Rafael Kawano, de 55 anos, também não esconde o carinho pelas raízes japonesas, mas afirma que sua escolha sempre foi clara.
“Eu sou nascido aqui no Brasil, então a minha escolha sempre foi Brasil. Mesmo trabalhando no Japão uns anos atrás, sempre fui Brasil. É lógico que a gente tem admiração pela desenvoltura que o Japão tem tido nos jogos. Mas a minha escolha pessoal é Brasil.”
Rafael viveu no Japão e acompanhou de perto parte da consolidação do futebol profissional no país. Em 1993, assistiu a uma partida da J-League entre Nagoya Grampus e Kashima Antlers, clube marcado pela passagem de Zico.
Segundo ele, a organização tática japonesa pode ser um dos principais desafios para a Seleção Brasileira.
“Eles têm um sistema de organização no meio de campo bem parecido com o da Alemanha. Eles são bem organizados taticamente. Se fizerem um jogo bem estruturado, provavelmente vão neutralizar um pouco a formação do Brasil.”
Ainda assim, ele aposta em vitória brasileira por 3 a 2.
Quem também conhece bem a convivência entre brasileiros e japoneses durante uma Copa do Mundo é o feirante Roberto Takeo Oshiro, de 57 anos. Sansei, ele viveu cerca de 12 anos no Japão antes de retornar ao Brasil, em 2011.
Foi lá que assistiu a um dos confrontos entre as duas seleções, cercado por torcedores dos dois países.
“Eu assistia ao jogo no Japão, Brasil contra Japão. Lá, o pessoal brasileiro torcendo para o Brasil e os japoneses torcendo para o Japão. Graças a Deus, deu Brasil.”
Para Roberto, o avanço técnico da seleção japonesa é evidente e já não permite subestimar o adversário.
“O Japão é bem persistente. Luta até o último minuto, corre atrás, não se dá por vencido. O time está sabendo mesclar a organização e a disciplina tática, que sempre teve, com uma habilidade cada vez maior. O Japão está evoluindo pouco a pouco no futebol.”
Mesmo assim, a preferência permanece inalterada.
“O coração vai doer um pouco, mas eu vou torcer para o Brasil. Sou descendente, mas brasileiro.”
Seu palpite é de vitória brasileira por 3 a 1.
Na Feira Central de Campo Grande, o tradicional movimento dará lugar à torcida. Como o espaço permanece fechado às segundas e terças-feiras, os comerciantes poderão acompanhar a partida ao lado das famílias, sem a preocupação com o expediente. O local, na Rua 14 de Julho, 3351, funciona às quartas, quintas e sextas-feiras, a partir das 16h, e aos sábados e domingos, a partir das 11h.
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