Moradores denunciam impactos da mineração em comunidade histórica de Corumbá
Fundado com a chegada da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, em 1912, e oficializado como distrito de Corumbá em 1938, Porto Esperança fica a cerca de 80 quilômetros da área urbana do município, às margens do Rio Paraguai. Durante décadas, a comunidade foi um dos principais pontos de integração entre a ferrovia e a navegação fluvial no antigo Mato Grosso, servindo de passagem para passageiros e mercadorias com destino a Corumbá e Cuiabá. Hoje, porém, o pequeno distrito onde vivem cerca de 60 famílias enfrenta uma realidade oposta à que marcou sua história, onde moradores denunciam que o intenso tráfego de caminhões da mineração compromete a qualidade de vida e ameaça o futuro da comunidade.
O que por muitos anos foi visto como um sonho — o fim do isolamento com a construção da estrada de terra ligando o distrito à BR-262 — acabou trazendo uma nova preocupação aos moradores. Desde que a via passou a ser utilizada para o transporte de minério de ferro até o Terminal Privativo Gregório Curvo, operado pela LHG Mining, caminhões pesados cruzam diariamente a estrada aberta ao lado da comunidade, levantando poeira, com barulhos constantes e alterando a rotina de quem vive às margens do Rio Paraguai.
As reclamações deram origem ao movimento SOS Porto Esperança, criado por moradores e apoiadores para denunciar os impactos ambientais e sociais enfrentados pela comunidade e cobrar providências dos órgãos públicos.
Natural de Porto Esperança, o engenheiro e integrante do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul, Moacir Lacerda, é um dos idealizadores do movimento. Para ele, a comunidade corre o risco de desaparecer caso nenhuma medida seja tomada. “Porto Esperança tem uma importância histórica muito grande. Era o ponto de ligação entre a ferrovia e o Rio Paraguai. As pessoas desciam do trem, embarcavam nos vapores e seguiam para Corumbá e Cuiabá. Foi um lugar que chegou a ter uma das maiores arrecadações de tributos do antigo Mato Grosso. Hoje, essa história está sendo apagada”, afirma.
Segundo ele, o isolamento começou ainda na década de 1990, quando os trens de passageiros deixaram de circular pela malha ferroviária. Anos depois, a abertura da estrada trouxe esperança aos moradores, que passaram a ter acesso terrestre ao distrito. Mas, a mesma via passou a atender o transporte de minério entre as minas de Urucum e o terminal de embarque instalado próximo à comunidade. “A população esperava que aquela estrada fosse a redenção de Porto Esperança. Mas ela acabou servindo para outra finalidade. Hoje, caminhões passam dia e noite levantando poeira e trazendo sofrimento para quem mora ali”, diz.
Os moradores relatam que o problema vai além do incômodo provocado pelo barulho. O pó avermelhado do minério cobre árvores, quintais, casas e ranchos de pescadores. Crianças e idosos convivem diariamente com a poeira levantada pelos veículos pesados, enquanto o fluxo intenso também gera preocupação com a segurança.
Para Moacir, os impactos atingem praticamente todos os aspectos da vida na comunidade. Segundo ele, crianças e idosos sofrem com a poeira constante, animais domésticos morrem, as hortas deixaram de produzir e muitas famílias já não conseguem sequer descansar durante a noite em razão do movimento ininterrupto de caminhões.
Comunidade pede soluções para reduzir impactos
Moacir defende que existem alternativas para reduzir os impactos sem impedir a atividade econômica. Entre elas estão a reativação da antiga Malha Oeste ferroviária e a criação de outra logística para o escoamento do minério.
Segundo ele, a retomada da ferrovia reduziria a dependência do transporte rodoviário, diminuindo o desgaste da BR-262, o fluxo de caminhões pesados e os impactos provocados na comunidade. Outra possibilidade seria transferir a estrutura de embarque para uma área mais próxima das minas de Urucum, evitando que centenas de veículos precisem cruzar diariamente as proximidades das residências.
Procurada pelo Jornal O Estado, a LHG Mining informou que vem desenvolvendo ações para minimizar os impactos causados pela operação na região. Segundo a empresa, foi implantado um sistema fixo de aspersão de água em quatro quilômetros da estrada, ampliada a operação para quatro caminhões-pipa atuando 24 horas por dia, além da instalação de quebra-molas e reforço da sinalização viária.
“A Lhg Mining apoiou a execução de obras voltadas à melhoria da infraestrutura e da qualidade de vida em Porto Esperança, entregues à população em 10 de junho. Desenvolvidas em parceria com a comunidade e o poder público, as iniciativas contemplaram a implantação de um playground, uma academia ao ar livre e um espaço de convivência, além do apoio à substituição das tubulações de água que atendem os moradores e à reforma de uma ponte local”, explicou a empresa em nota oficial.
No último dia 11 de junho, o Imasul (Instituto de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul) promoveu audiência pública para apresentar e discutir o Relatório de Impacto Ambiental do projeto de ampliação do Terminal Privativo Gregório Curvo, empreendimento da LHG Mining instalado em Porto Esperança.
A reportagem questionou o Governo do Estado e o Imasul sobre o diálogo com os moradores, a existência de estudos para reduzir os impactos provocados pelo empreendimento e a possibilidade de mudança da estrutura utilizada pela mineradora. Até o fechamento desta edição, não houve retorno.
Por Biel Gill
Acesse as redes sociais do Estado Online no Facebook e Instagram