Solurb registrou 21 acidentes no primeiro semestre
Os acidentes de trabalho envolvendo materiais perfurocortantes entre coletores de lixo de Campo Grande aumentaram 90,9% no primeiro semestre de 2026 em comparação com o mesmo período do ano passado. Dados da Solurb, concessionária responsável pelos serviços de limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos da Capital, apontam que o número de ocorrências passou de 11 para 21 casos entre janeiro e junho.
Agulhas de medicamentos, vidros quebrados e espetos de churrasco estão entre os principais materiais responsáveis pelos ferimentos sofridos pelos trabalhadores durante a coleta domiciliar. O aumento acende um alerta para os riscos provocados pelo descarte inadequado de resíduos e reforça a necessidade de conscientização da população.
Entre os agentes causadores, as agulhas lideram as ocorrências. Os acidentes envolvendo esse tipo de material passaram de sete para 12 registros no comparativo entre os primeiros semestres de 2025 e 2026, alta de 71,4%. Os vidros mantiveram o mesmo número de ocorrências, com quatro casos em cada período. Já os espetos de churrasco apareceram como uma nova preocupação, sendo responsáveis por cinco acidentes registrados neste ano.
Segundo a Solurb, os números poderiam ser ainda maiores. “Cabe ressaltar que as estatísticas de acidentes poderiam ser significativamente maiores. Diariamente, graças ao cuidado, treinamento e atenção constante das nossas equipes de coleta, diversos resíduos descartados de forma incorreta e mal acondicionados são identificados visualmente antes do manuseio direto, o que evita a consolidação do acidente físico”, esclareceu em nota.
Canetas emagrecedoras ampliam preocupação
O aumento da utilização de medicamentos injetáveis para emagrecimento também tem contribuído para a preocupação com o descarte correto de agulhas e canetas aplicadoras.
A presidente do CRF-MS (Conselho Regional de Farmácia de Mato Grosso do Sul), Daniely Proença, explica que a popularização desses tratamentos trouxe um novo desafio para a saúde pública.
“O crescimento do uso dessas canetas emagrecedoras trouxe um importante desafio para a saúde pública, que é o descarte correto desses materiais. Nesse cenário, o trabalho dos farmacêuticos tem sido fundamental na orientação da população sobre o uso racional dos medicamentos e a destinação adequada desses resíduos”, afirma.
Segundo ela, as agulhas utilizadas nas aplicações jamais devem ser descartadas no lixo comum. “As agulhas são materiais perfurocortantes e devem ser acondicionadas em recipientes rígidos e resistentes à perfuração. Já as canetas utilizadas devem ser encaminhadas para pontos de coleta adequados, seguindo a orientação do profissional farmacêutico”, explica.
Daniely alerta que o descarte incorreto coloca em risco não apenas os trabalhadores da limpeza urbana, mas também familiares e a população em geral. “Esses materiais podem causar acidentes com coletores de resíduos e trabalhadores da limpeza urbana, além de representar risco de transmissão de doenças. Também existe impacto ambiental, já que esses resíduos podem contaminar o solo e a água”.
Risco diário para coletores
De acordo com a Solurb, os acidentes ocorrem principalmente quando materiais cortantes são colocados em sacos de lixo sem qualquer proteção ou identificação.
Para reduzir os riscos, a concessionária orienta que vidros sejam embalados em caixas de papelão, folhas de jornal ou recipientes resistentes, devidamente fechados e identificados com a inscrição “Cuidado: Vidro”.
No caso de agulhas e seringas, a recomendação é armazená-las em recipientes rígidos, como garrafas PET com tampa ou frascos plásticos resistentes, e encaminhá-las para unidades de saúde ou estabelecimentos habilitados a receber esse tipo de resíduo.
A empresa também informou que, sempre que suas equipes identificam o descarte inadequado de materiais perfurocortantes, o SESMT (Serviço Especializado em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho) envia notificações orientativas aos moradores responsáveis, explicando os riscos e as formas corretas de acondicionamento.
Responsabilidade compartilhada
Para a presidente do CRF-MS, a solução depende da participação conjunta da população, dos serviços de saúde, da indústria e do poder público. “A legislação brasileira estabelece responsabilidades compartilhadas entre consumidores, serviços de saúde, indústria e poder público. Mas a participação ativa dos farmacêuticos é indispensável para transformar informação em cuidado e promover práticas seguras para toda a sociedade”.
Ela reforça que medicamentos podem salvar vidas quando utilizados corretamente, mas o descarte inadequado dos resíduos gerados pelos tratamentos pode representar uma ameaça silenciosa para trabalhadores e para o meio ambiente.
“O farmacêutico exerce um papel essencial de orientação e proteção da sociedade. O medicamento salva vidas, mas seu descarte incorreto pode trazer riscos à saúde e ao meio ambiente”.
Por Geane Beserra