O Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGEDU) da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) realizou nesta quinta-feira (11/06/2026) a palestra “Perspectivas do Corredor Bioceânico para o Desenvolvimento de Mato Grosso do Sul”, ministrada pelo professor e pesquisador Eronildo Barbosa da Silva. O encontro reuniu estudantes, pesquisadores e profissionais interessados em compreender os impactos da Rota Bioceânica, projeto de integração continental que ligará o Brasil aos portos do Oceano Pacífico por meio do Paraguai, Argentina e Chile.

Fonte: Acervo do Autor
A idealizadora da atividade realizada foi a Professora Elisa Rodrigues, que é mestranda em educação na UFMS e também é coordenadora do Comitê Popular de Acompanhamento dos Impactos da Rota Bioceânica no Grande Lageado. O referido comitê tem como um dos principais objetivos, proporcionar a aproximação de informações técnicas e científicas para a comunidade do Grande Lageado, que será uma região amplamente impactada com a Rota Bioceânica, devido ao Porto Seco que será instalado em sua adjacência. Tais ações articuladas do comitê, principalmente com a Universidade Pública contribuem para a consciência popular e na mitigação dos impactos sociais, educacionais e ambientais desta rota do desenvolvimento.
Imprescindível destacar que os professores PhD Linoel de Jesus Leal Ordonez e Solange Jarcem Fernandes foram os responsáveis em possibilitar que a atividade fosse realizada no Auditório Marçal de Souza na UFMS, ambos integram a Linha de Pesquisa 1- Estado, Políticas e Educação.
Ao longo da exposição, o palestrante propôs uma reflexão que ultrapassa as análises econômicas tradicionais. Segundo ele, embora a nova rota represente uma oportunidade estratégica para ampliar a competitividade das exportações brasileiras, seus efeitos mais profundos serão percebidos nas transformações sociais, educacionais e culturais que acompanharão o processo de integração regional.
Eronildo Barbosa destacou que a ideia do corredor não surgiu apenas dos interesses do grande capital internacional, mas também das demandas históricas de comunidades situadas em regiões periféricas e economicamente fragilizadas. Para o pesquisador, municípios como Porto Murtinho e localidades do Chaco Paraguaio enxergam na integração uma possibilidade concreta de superação do isolamento geográfico e de inserção em novos circuitos econômicos.
No campo econômico, o professor ressaltou que a Rota Bioceânica permitirá reduzir significativamente o tempo de transporte de mercadorias destinadas aos mercados asiáticos. Produtos como soja, carne, celulose e outros itens exportados pelo Centro-Oeste poderão alcançar os países da Bacia do Pacífico em menos tempo e com menores custos logísticos, fortalecendo a competitividade da economia Sul-mato-grossense.

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Entretanto, segundo o palestrante, os benefícios econômicos somente alcançarão a população local se houver investimentos consistentes em qualificação profissional. Ele observou que Mato Grosso do Sul já enfrenta dificuldades para suprir a demanda por trabalhadores especializados e que a situação poderá se tornar ainda mais desafiadora com a ampliação do fluxo de mercadorias e pessoas ao longo do corredor.
Nesse contexto, Eronildo atribuiu papel fundamental às instituições de ensino. Para ele, universidades, escolas técnicas e programas de formação profissional precisam atuar de maneira integrada para preparar trabalhadores aptos a ocupar as novas oportunidades que surgirão nos setores de logística, comércio exterior, serviços e tecnologia. O professor enfatizou que a educação deve ser compreendida como elemento estratégico para que o desenvolvimento econômico seja acompanhado por inclusão social.
Durante o debate com os participantes, um dos temas foi a aproximação da conclusão da ponte internacional entre Porto Murtinho e Carmelo Peralta, no Paraguai. A obra simboliza um marco da integração física entre os países envolvidos e deverá intensificar a circulação de pessoas, bens e serviços na região.
Respondendo aos questionamentos do público, o professor alertou para a necessidade de enfrentar problemas relacionados ao tráfico de pessoas, à exploração sexual, ao trabalho infantil e às diversas formas de vulnerabilidade social que podem acompanhar grandes corredores de circulação econômica. Em sua avaliação, a atuação articulada dos governos, das instituições de fiscalização e da sociedade civil será indispensável para evitar que o crescimento econômico seja acompanhado pelo agravamento das desigualdades sociais.

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Outro ponto amplamente discutido foi a integração cultural entre os países participantes da rota. Eronildo observou que construir estradas e pontes é menos complexo do que harmonizar legislações, procedimentos aduaneiros, idiomas, práticas culturais e formas de convivência entre diferentes povos. Segundo ele, a consolidação do corredor exigirá profissionais preparados para atuar em ambientes multiculturais e sistemas capazes de dialogar com diferentes realidades nacionais.
A necessidade de formação de profissionais para áreas ligadas ao comércio exterior, alfândegas, logística internacional e atendimento multilíngue também foi apontada como uma das demandas emergentes da nova realidade regional. O palestrante destacou que a integração econômica dependerá igualmente da preparação de pessoas capazes de atuar nos diversos serviços exigidos pelo fluxo internacional de mercadorias e turistas.
Questões relacionadas à migração também ocuparam parte significativa do debate. Professores e pesquisadores relataram o aumento da presença de estudantes estrangeiros nas escolas sul-mato-grossenses, especialmente venezuelanos, e levantaram preocupações sobre a formação docente necessária para lidar com contextos interculturais e multilíngues. Para Eronildo, a tendência é que esses movimentos migratórios se intensifiquem, exigindo novas políticas educacionais voltadas à inclusão, permanência e integração desses estudantes.

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Ao final da palestra, o pesquisador destacou que a Rota Bioceânica não deve ser compreendida apenas como uma obra de infraestrutura ou um projeto econômico. Em sua avaliação, trata-se de um processo amplo de transformação social que envolve mobilidade humana, interculturalidade, formação profissional, desenvolvimento regional e garantia de direitos. “O corredor não é o problema central; os verdadeiros desafios estão nas questões humanas que ele traz consigo”, sintetizou o palestrante ao encerrar o encontro.
A atividade integrou as ações acadêmicas do PPGEDU/UFMS e contribuiu para ampliar o debate sobre os impactos da Rota Bioceânica em Mato Grosso do Sul, reforçando a necessidade de que o desenvolvimento econômico seja acompanhado por políticas educacionais, sociais e culturais capazes de promover uma integração regional efetivamente inclusiva.

Fonte: Acervo do Autor
Por Alex Barbosa de Lima e Elisa Benicia de Oliveira Rodrigues