Toy Story traz para as telas uma grande discussão dos últimos anos: o quanto as crianças podem ser expostas à tecnologia?

Foto: Reprodução
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Final dos anos 90, começo dos anos 2000, não havia mais para onde fugir: a tecnologia invadiu as casas e o mundo, com novos tipos de telefones móveis, televisores e computadores, que vieram com novas funções e facilidades. Com essa revolução, até mesmo os brinquedos passaram por mudanças, em que deixaram de ser ‘simples’ e que estimulavam a imaginação, para trazer controles por voz, luzes e movimentos. Entretanto, atualmente, com a ascensão das telas, a tecnologia chegou a novos patamares para os pequenos, com tablets e smartphones substituindo as bonecas e bonecos.

Essa é a temática do novo longa-metragem da franquia Toy Story, que chega ao seu quinto filme explorando a relação brinquedos x crianças. Só que, dessa vez, o vilão não é um brinquedo ou uma outra criança mal-intencionada, e sim a tecnologia. No momento em que Bonnie, a ‘herdeira’ dos brinquedos de Andy descobre o mundo da internet por meio do tablet infantil Lilypad, a vaqueira Jessie tenta manter todos os brinquedos unidos e ainda tentar resgatar a humana do mundo da tecnologia.

Tecnologia ‘inimiga’

No filme, o tablet que Bonnie ganha é a tentativa dos pais de fazerem a criança se encaixar em um mundo onde os pequenos vivem conectados. Já vimos algo parecido no momento em que Andy ganha Buzz Lightyear, lá no primeiro filme: os olhos do menino brilham para o boneco, que é mais moderno que o simples vaqueiro de cordinhas Woody.

Entretanto, a ação dos pais da personagem na verdade causa um revés. Enquanto era ignorada por outras crianças do bairro por ainda brincar de faz de conta e ser apegada aos seus bonecos, a presença do tablet na vida de Bonnie deixa-a ainda mais isolada, perdendo assim o pouco contato que tinha com as crianças.

Conforme a OMS (Organização Mundial da Saúde), crianças de até dois anos não devem ser expostas a telas. Aquelas de dois a cinco devem ter apenas uma hora diária; até os dez, o limite de tempo deve ser de duas horas. Tudo isso acompanhada de um adulto, que fiscaliza os acessos e auxilia a desenvolver a consciência crítica em relação ao aparelho e seus conteúdos.

A pedagoga Carolina Toffanetto já trabalhou e conviveu com crianças que não tinham nenhum tipo de acesso a telas, ao mesmo tempo com crianças que não possuíam regras sobre o uso da tecnologia e que, com apenas três anos, já tinham em mãos tablet, celular e acesso ilimitado à internet. “A diferença no desenvolvimento dessas crianças é absurda”, pontuou em entrevista ao jornal O Estado.

Segundo ela, toda a infância pode ser prejudicada quando o menor perde a interação com brinquedos e jogos e os substitui por telas.

“A criança não desenvolve coordenação motora, criatividade, imaginação, equilíbrio. Habilidades sociais, interação entre pares. Fora tudo que é inadequado que elas são expostas na internet”, explica. “Eles perdem muito a interação com o mundo ao redor”, completa.

Entretanto, ela destaca que o uso de telas pode ser um meio de rede de apoio em certos casos. “A discussão de telas na infância é um buraco mais profundo quando a gente olha da perspectiva socioeconômica do Brasil”.

A jornalista Maria Clara, de 25 anos, nasceu em uma geração rodeada pela internet e tecnologias, mas obteve o controle parental desde o início. “Passei um bom tempo sem acesso à internet por conta da minha mãe. Eu usava o Orkut e Facebook dela para jogar, e só jogos que ela aprovava”, relembra.

Para ela, essa proteção foi essencial para construir um senso crítico digital. “Sou grata por ela ter feito isso, porque me protegeu muito; entendi que a internet é um lugar perigoso. Eu mesma conheço uma criança que já foi enganada por um adulto pela internet, que também entrou em contato com um monte de crianças, um perigo”.

Quem vai ocupar os cinemas?

A franquia Toy Story começou em 1995. Mais de 30 anos depois, quem ela leva para as salas de cinema em cada lançamento?

Para Carolina, ele ainda é essencialmente um filme infantil, mas que pode ser assistido pelos adultos como importante ferramenta de aprendizagem. “Quando você coloca a tecnologia como um vilão na história de brinquedos, traz uma explicação de algo muito importante e de maneira lúdica. Tablet, celular e afins não são brinquedos. Não são para crianças; interferem no desenvolvimento cerebral, na socialização. Eles são de fato um vilão na infância da atualidade. E colocar isso de maneira lúdica, num filme com personagens conhecidos, brinquedos, uma animação — que muitos pais vão assistir por nostalgia e levar as crianças. É algo que tem um poder de atingi-los de maneira muito mais fácil”.

Ela ainda pontua que a linguagem das animações acessa o mundo infantil de uma maneira que muitas vezes os pais não conseguem. “Os filmes que falam sobre isso podem ser pontos de partida importantes, porque conversam com as crianças, entram no mundo, na linguagem delas, para explicar algo que seja um problema real”.

Maria Clara acredita que o filme é “para todos”, incluindo profissionais que trabalham com essa faixa etária do filme. “Muita gente que eu conheço vai por já conhecer a franquia. Mas também sei de pessoas que vão porque acharam interessante esse novo gancho da tecnologia; é inegável que ela mexeu na infância das crianças. Um exemplo é minha mãe, que gosta do filme, mas vai vê-lo pela curiosidade de como vão abordar a tecnologia. Ela é professora de creche e vive a inserção da tecnologia na vida das crianças diariamente”, disse ao jornal O Estado.

A maioral entra na área

Em Tpy Story 5 uma presença pegou a todos de surpresa: Taylor Swift. A cantora norte-america participa do longa com a música tema de Jessie, ‘I Knew It, I Knew You’. Lançada de surpresa, a música também é um trampolim para trazer para o cinema uma geração que não acompanhou a franquia, mas que é fissurada na arte da bilionária da música.

Fã da cantora, Carolina acredita que a música fez sentido com o filme e ainda serviu como uma ponte para a história inicial de Jessie, apresentada em Toy Story 2. “Me lembra muito da cena em que a Jessie conta sobre a primeira criança dela… A melodia, o tom da música, são muito parecidos para mim”, recorda.

Ela ainda acredita que a canção é um belo spoiler do filme. “A música começa num tom de quem tinha ‘perdido’ a criança, de certa forma, porque cresceu. Mas, como vimos no clipe, o vilão do filme vai ser um tablet, o que faz total sentido com o cenário atual da sociedade. Então, juntando as duas coisas (a letra e o trailer do filme), dá para concluir que a criança vai deixar os brinquedos de lado por conta do novo presente, mas, no final da letra, é como se a criança voltasse a amar o brinquedo. Então acho que o filme também vai ter essa vibe”.

Maria Clara pontua como a nova música é um resgate das ‘raízes’ do country de Swift, que começou a carreira explorando esse gênero. “Acho que a história da Jessie tinha sido pouco explorada; achei que ela ia sentir mais quando fosse abandonada de novo, mas acho que não tinha tempo para isso. Agora fico feliz que vão tocar na ferida. A música cai perfeitamente nessa ideia de ‘eu te conhecia’ no passado; um dia tivemos algo, que casa com a primeira música dela, ‘When She Loved Me’”.

A estudante Rubia de Arruda Pessoa, também fã da cantora, cresceu assistindo à franquia e ouvindo Taylor Swift, então ver a ‘colisão’ desses dois mundos é algo especial.

“A música tem aquele lado emocionante que combina muito com a história do filme e principalmente, com a personagem Jessie, que a inspirou a fazer a canção… E, além disso, é bem legal ouvir a Taylor trazendo um pouco do estilo country de volta e retornando ao começo da carreira dela. Foi uma parceria que fez todo o sentido”.

Para ela, vai ao cinema os telespectadores de todas as idades. “Desde o primeiro filme, cada história trouxe temas que faziam sentido para a época e tem assuntos que atravessam vivências humanas no geral, e as crianças se divertem com os personagens, mas acredito que quem cresceu assistindo também consegue se identificar com essas histórias”.

Sinopse

O quinto filme da franquia Toy Story, dirigido por Andrew Stanton (Procurando Nemo e Vida de Inseto), vai mostrar como os brinquedos lidam com a chegada da tecnologia. Agora com 8 anos de idade, Bonnie descobre um novo passatempo: o tablet Lilypad (Greta Lee). Jessie (Joan Cusack) tenta manter todos unidos e esperançosos, mas quanto mais tempo Bonnie passa com Lilypad, mais os brinquedos entram em desespero. É nesse contexto que Woody (Tom Hanks) retorna, mais velho e experiente, e vai tentar tudo que pode para ajudar todos a conseguirem lidar com essa nova realidade. Buzz Lightyear (Tim Allen), Woody, Jessie e os demais brinquedos seguem uma jornada difícil de aprendizado que revela que a tecnologia e a tradição podem coexistir, mas também acendem um alerta sobre a quantidade de horas que uma criança passa em frente a telas, adaptação e a perda de afeto humano com a chegada do distanciamento causado pelo digital.

 

Por Carolina Rampi

 

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