Certa vez, no início dos anos 2000, em um evento cultural na Morada dos País, estava aproveitando uma prosa – sempre instrutiva – com a historiadora e professora Alisolete Weingartner quando fui surpreendido com a pergunta: “Evandro, você como músico, sabe me dizer porque a polca paraguaia é tão presente em nossa região?” Fiquei sem saber o que dizer pois nunca havia pensado à respeito. Mas na hora me veio a lembrança de festas e cheiro de churrasco que, desde a minha infância, estavam sempre relacionadas aos sons de harpas paraguaias e às vozes potentes e bem colocadas das duplas cantando em guarani ou misturando guarani com castelhano.
Na minha memória, a paisagem sonora de Campo Grande da minha infância era marcada pelos conjuntos de músicos paraguaios ou brasileiros das regiões de fronteira, que embalavam os almoços e jantares nos restaurantes Cantêro, Ponteio ou Cabana Gaúcha, bem como nas festas de aniversário, nas exposições de gado, casamentos ou churrascadas de domingo na Fazenda Rancharia.
Me veio também a lembrança de acordar docemente, no meio da madrugada, ouvindo as vozes de Jandira e Benitez e o borbulhar das notas que jorravam da harpa em uma serenata que fizeram para meu tio em algum momento dos anos 1970. Fazer serenatas era um costume de antigamente em Campo Grande e eu mesmo, na época em que era estudante na FUCMT (hoje UCDB) participei de várias com os colegas de turma.
Junto com essas evocações, me lembrei finalmente de um episódio ocorrido alguns meses antes da conversa com a professora Alisolete. Estava no Teatro do Sesc-Horto assistindo um recital do pianista campo-grandense Alexandre Correa da Costa, que na época residia no interior de São Paulo. Após tocar com brilhantismo um programa que incluía clássicos da música erudita, a platéia de senhores e senhoras bem vestidos e aparentemente familiarizados com a liturgia desse tipo de concerto, aplaudiu com entusiasmo e pediu um bis. O pianista voltou ao palco, sentou-se ao piano e, contrariando as expectativas, começou a música extra com lentos saltos em oitava com a mão direita que, à medida em que foram acelerando, o público imediatamente reconheceu: “Pájaro campana”.
Essa antiga polca anônima é bastante difundida no Paraguai, principalmente depois de popularizada pelo célebre harpista Félix Pérez Cardozo. Ao reconhecer a música e, impelidos por um entusiasmo incontrolável, a platéia irrompeu em um sonoro sapucay: yiiiiiiiiipuuuuuuu!!!!! Foi como liberar as águas das identidades represadas pelas normas de comportamento e convivência social aceitas e legitimadas pelas elites culturais. Aquela brecha de transgressão coletiva me deixou espantado e desconcertado: o que tinha acontecido?
Tudo isso me meio à memória quando Alisolete me perguntou: “por que a polca paraguaia é tão presente em nossa região?”
Fiquei matutando durante semanas e um belo dia recebo pelo correio um presente do amigo, maestro e compositor João Guilherme Ripper: um exemplar do livro “La Música Paraguaya”, de Florentín Giménez. Devorei o livro, que é cheio de transcrições e memórias do autor que foi um importante músico do Paraguai. Estava dada a senha: minha curiosidade tinha que me levar a buscar pistas e hipóteses. Garimpei no meio de antigos discos de vinil empoeirados, verdadeiros tesouros fonográficos. Ouvi com emoção a doce voz de Jandira na gravação da guarânia “Saudade” de Mário Palmério. Não tinha volta. Me tornei um pesquisador do que podemos chamar – embora imprecisamente – de música de fronteira em Mato Grosso do Sul.
Todo um universo de personagens e histórias passadas passaram a povoar meus pensamentos e a cada vez que conseguia acessar uma nova fonte, novas perguntas e questões se impunham. O material de pesquisa era amplo demais, rico demais e instigante demais. Comecei a escarafunchar os fatos históricos, as interpretações dos historiadores, as teorias sobre construção de identidades e a ouvir com extrema atenção as canções que povoavam minhas lembranças afetivas e descobrir nelas desdobramentos e camadas de significados que não imaginava encontrar. Esse tesouro de dados e lembranças se fez ainda mais rico com o aporte dos músicos que contribuíram com seus relatos, narrativas e musicalidades para levar adiante as pesquisas: Júlio César Figueiredo, Benitez, Abel Baez, Paulo e Gerardo Ortiz da dupla Los Divinos, Elinho do Bandoneon, Osvaldo Nogueira, Aurélio Miranda, Beth e Betinha, Delinha, Nicolás Salaberry, Papi Galán, Ofélia, Aluísio Lopes, Brás Baccarin, Iara Fortuna, e tantos e tantos outros…
Descobrir um universo cultural complexo que se escondia nas profundezas das heranças centenárias da minha região me fez reconstruir e ampliar minhas percepções sobre os fatos e as relações sociais que a música guarda nas entrelinhas da pauta, nos acordes, nos ritmos, nas melodias e nas vozes que muitas vezes hoje só conseguimos acessar graças às gravações e material audio-visual, em um misto de saudade e encantamento.
Por Evandro Higa
Quem é Evandro Higa?
Professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, pesquisador e músico, Evandro Higa é doutor em Música e um dos principais estudiosos da história musical de Mato Grosso do Sul. Seu trabalho reúne pesquisas sobre memória, patrimônio cultural e a trajetória da música no Estado, contribuindo para a preservação de episódios e personagens que marcaram a formação da identidade sul-mato-grossense.
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