Estamos convictos de que há diferenças entre Filosofia do Brasil (sobre o Brasil), Filosofia no Brasil (feita no Brasil) e Filosofia Brasileira (marcada pela radicalidade do modo brasileiro de problematizar a si mesmo, ao seu país e ao mundo). Em 2026 voltamos a ministrar a disciplina de Filosofia Brasileira na UFMS, pensando nas relações entre ciência, política e sociedade a partir da obra “O Alienista”, de Machado de Assis. No entanto, é em homenagem aos 70 anos de “Grande Sertão: Veredas”, que queremos refletir sobre algumas passagens desse imenso tratado de Metafísica sob a forma de literatura de vanguarda. O Sertão roseano, que está por toda parte, é um espaço metafísico sem o qual não podemos olhar para o Brasil em sua imensa complexidade. Mas o que pretendemos, um dia, é encarar questões que nos parecem profundamente problemáticas, abertas, carentes do devido tratamento. “O que é o Mato Grosso do Sul?” e “O que é Campo Grande?” são duas delas. Qual nosso imaginário, nosso universo simbólico e mundo espiritual? Do que se constitui nosso sentimento de pertencimento? Qual nossa identidade e como ela se desenvolveu? O que é radicalmente nosso? O que sendo peculiar, próprio, elementar, de MS e também de Campo Grande, é igualmente, por sua vez, de natureza universal, podendo oferecer novas perspectivas e respostas para problemas que dizem respeito à condição humana, ou indo além, ao ser enquanto tal?
Há um espaço, um bioma, um mundo geográfico, cultural, sociológico; mas também simbólico, espiritual e metafísico, que é o Pantanal, ou, a soma dos muitos pantanais. Há uma maneira pantaneira de “ser-aí”, isto é, de se constituir como gente no mundo, se relacionar consigo, com o outro, com a natureza? Uma maneira pantaneira de sentir e pensar, de responder o que é o humano, a natureza, o mundo? Esse pensamento originalmente pantaneiro, nos ajuda a colocar e responder questões locais e universais? Em nossa inesgotável admiração e amor intelectual pela obra de Manoel de Barros e pela viola e a fortuna literária de Almir Sater, temos vislumbres do Pantanal. Vislumbres na arte de Conceição dos Bugres, na cerâmica e na tapeçaria de inúmeras etnias, na História da Guerra do Paraguai, na intersecção entre o Pantanal Brasileiro, o paraguaio e o boliviano, na relação com a cultura dos Estados brasileiros vizinhos, a começar pelo Mato Grosso. Capítulo importante de nossa história é compreender melhor quais forças atuaram, desde há muitas décadas, na elaboração de uma ideia de que o Sul de Mato Grosso poderia ser o Mato Grosso do Sul.
Devemos nos perguntar, por exemplo, o que foi o Estado de Maracaju? Sua memória ainda vive? Temos poucas respostas, algumas hipóteses e uma sensação. Enquanto sociedade, não temos memória. Não sabemos ao certo quem foi Lídia Baís e Glauce Rocha, por exemplo. Não sabemos quem foi Dionísio, cujas furnas permanecem acesas. Não temos nem mesmo a dimensão de quem é Manoel de Barros e qual seu devido lugar na História da Literatura Universal. Aqui sei que misturamos tudo. Mato Grosso do Sul. Campo Grande, impensável sem a presença dos japoneses, sobretudo okinawanos, libaneses, sírios, paraguaios, bolivianos, terenas, dentre outros povos e etnias, e o Pantanal sul-mato-grossense, que espiritualmente, falta-nos delimitar onde começa e onde termina, se de fato tiver início e fim. Pode ser que seja uma realidade não-local, para além do espaço geográfico. Enfim, são muitas as questões. Há trabalho para gerações. Seja lá o que e como for, gostaríamos hoje de adiantar três “hipóteses”, em sentido muito geral, que mais se confundem com sensações intelectuais das quais nossa principal fonte são as obras completas de Manoel de Barros e a discografia de Almir Sater, rica em literatura sobre essa terra e seu povo.
Não há aqui a pretensão de “clareza”, sobretudo porque na aurora pantaneira certa neblina paira sobre as águas: 1. O Pantanal como extensão, constitui um certo tipo de espaço, mas não é um lugar. É antes de tudo uma profunda sensação de que o “homem” e a “terra” em seus regimes cíclicos “violentos” formam um sistema orgânico. 2. Esse sistema, composto por exuberante fauna e flora, um clima complexo e terrível, descrito por Euclides da Cunha em “Os Sertões”, e uma gente que vive e reage ao clima, ao ambiente, ao cerrado peculiar e a fauna única, possui vida própria, a despeito do que esteja acontecendo “lá no Brasil” ou em outras partes. 3. A gente desse lugar é plural, multiétnica, mistura português, guarani, espanhol, se expressa pela viola, pela cerâmica, etc; mas, sobretudo, é marcada pela pluralidade. O pantaneiro não é um tipo único, como o boiadeiro. O boiadeiro dos alagados dessas bandas é um tipo de pantaneiro. O pantaneiro geral não se deixa capturar por um estereótipo, embora tenha um arquétipo: o homem da terra, inseparável do clima, da fauna e da flora.
De tais observações não se deduz, em sentido estrito, uma Filosofia Pantaneira. Talvez uma maneira pantaneira de fazer Filosofia seja sistêmica, ou “orgânica”, (não sistemática), naturalista (o Pantanal é um cosmos, é o mundo, é “maior que o mundo”) e plural. Do muito que precisamos desenvolver e pensar é que resposta uma Filosofia Pantaneira poderia nos dar para o problema fundamental “O que é a natureza e qual nosso lugar nela?” Resposta que, ao que nos parece, é a grande força de orientação dos nossos tempos.
Vinícius Carvalho da Silva é Professor de Filosofia na UFMS. E-mail: vinicius_c_silva@ufms.br
Pedro H. C. Silva Zanon é Mestrando em Filosofia no PPgFil-UFMS. E-mail: pedro.h.c.silva@ufms.br
Gabriel Santana é Editor, teólogo e graduando em Filosofia na FACH-UFMS. E-mail: gabrieliteratura333@gmail.com
Este artigo é resultado da parceria entre o Jornal O Estado de Mato Grosso do Sul e o FEFICH – Fórum Estadual de Filosofia e Ciências Humanas de MS.
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