Em algum momento no final dos anos 1970, fui com alguns colegas do curso de Direito a uma inauguração de exposição de quadros no antigo ERP – Edifício das Repartições Públicas, que depois virou o Fórum de Campo Grande e hoje abriga diversos equipamentos culturais, inclusive a sede da Fundação de Cultura de MS.
Era uma noite cálida e, aproveitando uma janela entre as aulas (ou matando aula mesmo, não me lembro…, lá fomos nós no velho opala quatro portas laranja do meu pai que eu usava para ir à faculdade (o curso era noturno). Após as falas de abertura, olhei para o mezanino e percebi um senhor de meia idade e óculos de aros grossos que observava a cerimônia.
Era o maestro Hermínio Giménez. Momentos depois começou a ecoar pelo ambiente amplo do hall do edifício os sons penetrantes do bandoneón. Seguiram-se guarânias, tangos e boleros em uma sequência que preencheram a paisagem sonora e emolduraram as telas expostas em tripés.
Eu ainda não sabia, mas muito tempo depois, ao me debruçar sobre a música paraguaia e fronteiriça de MS, como pesquisador, me daria conta de que havia sido premiado com uma performance ao vivo de um dos maiores nomes da música do Paraguai e que, naquele momento, residia em Campo Grande com sua esposa María Victoria.
Hermínio Giménez nasceu em General Bernardino Caballero, Paraguai, em 1905 e veio a falecer em 1995 na capital Assunção. Sua história de vida é marcada por longos períodos no exílio por conta de perseguições políticas por parte das ditaduras paraguaias e ele só retornou ao seu país aos 86 anos, após a deposição do ditador Alfredo Stroessner em 1991. Em narrativas de seus biógrafos, consta que ele residiu durante longos períodos na cidade de Corrientes, nordeste da Argentina, tendo se tornado um ícone da música local e impulsionado a popularização do chamamé.
Giménez também residiu durante vários períodos em Buenos Aires, São Paulo e Rio de Janeiro e teve sua guarânia “Lejania” gravada em 1952 pela dupla Cascatinha e Inhana em versão de José Fortuna. Na versão brasileira, “Lejania” virou “Meu Primeiro Amor”, e até hoje ressoa na memória de muita gente, o que conecta o maestro à história da música popular brasileira.
Mas o que pouca gente sabe (e as fontes trazem notícias esparsas) é que Giménez residiu também em nossa cidade durante vários períodos nas décadas de 1970 e 1980 e talvez até mesmo antes! No livro “Mi vida com Herminio Giménez”, que a escritora paraguaia Lita Pérez Cáceres escreveu em 2005 a partir de entrevistas realizadas com dona María Victoria, viúva do maestro, consta que, em 1931, aos 27 anos, o jovem compositor estava em Campo Grande quando decidiu se alistar no exército paraguaio para lutar na Guerra do Chaco contra a Bolívia.
Consta também que, por muitas ocasiões, Giménez era convidado a participar dos festejos de aniversário de Campo Grande em agosto (cidade que lhe concedeu o título de Cidadão Ilustre), bem como das exposições de gado que se realizavam aqui anualmente. Em uma dessas ocasiões, teria nascido a famosa polca “Amor Matogrossense”. Além disso, Giménez liderou o célebre Conjunto Ponta Porã, com o qual se apresentou em turnês no Brasil e outros países e gravou diversos discos.
Me lembro também da emoção que senti quando, ao realizar minhas pesquisas para a dissertação de mestrado, meu amigo Julio César Figueiredo (filho de paraguaios), me mostrou um manuscrito de próprio punho da polca “Che Trompo Arazá”, que o maestro transcreveu para piano e presenteou o jovem pianista Julio durante uma visita aos seus pais na residência do bairro Amambaí em Campo Grande.
Me lembro também do relato do professor Hildebrando Campestrini, que manteve durante muitos anos, relações de amizade com o maestro e me contou que ele residiu em uma casa de vila na rua Marechal Rondon, logo abaixo do trilho da Noroeste e se apresentava regularmente no Bar e Restaurante O Gato Que Ri. Não por acaso, esse local era o ponto de encontro da sociedade campo-grandense e o proprietário era seu amigo e também exilado paraguaio Ricardo Granda, que, antes de vir para Campo Grande, havia dirigido a Editora Paraguaya de Musica, em Assunção.
Apesar da importância de Hermínio Giménez para a música (e política) paraguaia, de seu reconhecimento na Argentina e intensa atuação internacional, o maestro sofreu grande constrangimento em 1953 no Rio de Janeiro, quando foi convidado e depois desconvidado para reger um concerto com orquestra sinfônica no Teatro Municipal. O veto da comissão artística da orquestra alegou que tratava-se de “música popular orquestrada” e que “não estava à altura do exigido para um concerto sinfônico convencional”…
No dia 29 de abril último, o jornalista e pesquisador Rodrigo Teixeira lançou um catálogo intitulado Em Busca do Lendário Paralelos Trágicos, em que reúne farta documentação sobre o longa metragem produzido e dirigido em Campo Grande na década de 1960 pelos irmãos Abboud e Bernardo Lahdo. Nesse filme, considerado um marco do cinema nacional, a trilha sonora foi assinada por Hermínio Giménez. A cópia original do filme foi perdida em um incêndio no ano 2000, mas parece que há duas cópias em 36 mm e 16 mm preservadas na Cinemateca Brasileira e com a família Lahdo. Estou muito muito curioso para ver isso!

Acho que ainda vou escrever um artigo maior e com mais dados e fontes sobre os estreitos laços que unem Hermínio Giménez a Campo Grande. Ele pode ser considerado um elo importantíssimo na dinâmica cultural que entrelaça a música paraguaia, argentina e brasileira. E viveu também aqui, entre nós! É preciso escrever essa história…
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