Referência do fotojornalismo sul-mato-grossense, Higa enfrenta fase sem possibilidade de cura do câncer
O olhar que eternizou… não será eterno. A família do fotógrafo Roberto Higa, de 74 anos, um dos mais importantes do Mato Grosso do Sul, responsável por registrar desde a política até a fauna e flora de MS e Mato Grosso, antes da divisão do Estado, publicou em suas redes sociais que o profissional voltou a enfrentar o câncer, dessa vez sem possibilidade de cura, e seguirá sob cuidados paliativos.
Conforme vídeo publicado neste domingo (21), Roberto aparece cercado da família. Segundo a filha, Mary Higa, informou sobre a impossibilidade de tratamento para o câncer do pai.
“Depois de muita luta, chegamos ao momento em que não há mais possibilidades de tratamento com intenção de cura. Agora seguimos pelos caminhos dos cuidados paliativos, em que o foco é o conforto, a dignidade e, acima de tudo, o amor”, disse no vídeo.
Ao som de ‘Como é Grande o Meu Amor por Você’, de Roberto Carlos, a família ainda diz que a cura estará nos abraços, palavras, memórias e na presença de todos aqueles que fizeram parte da caminhada de Higa.
“Sentiremos saudades antes mesmo da despedida, mas escolhemos seguir com a mesma força, resiliência e gratidão que sempre fizeram parte da vida dele”, disseram. Nas imagens, o próprio Roberto Higo comenta: “com a bolsa do lado, o resto a gente resolve”, citando um dos seus acessórios mais icônicos depois da câmera fotográfica.
“Roberto Higa nos ensinou a enxergar a beleza das pessoas, dos encontros e da vida através de suas lentes e de seu coração generoso. Guardaremos para sempre a imagem do homem forte, do pai amoroso, do esposo dedicado, do profissional talentoso e do amigo que tanto inspirou quem teve o privilégio de conhecê-lo”, complementa a nota da família.
Além disso, eles reforçam a gratidão por todas as mensagens, orações e demonstrações de carinho demonstradas pelos admiradores, fãs e amigos ao longo dos anos. “Que seu legado se perpetue por todas as nossas gerações”, finalizam.
Repercussão
A notícia pegou a todos de surpresa e mexeu com a cultura de Mato Grosso do Sul. A multiartista Lenilde Ramos comentou que Higa fez parte de sua infância e história. “É um brilhante profissional que respeito e admiro. Me conforta vê-lo rodeado pela família e pelo amor de todos nós, seus fãs. Que ele seja amparado pela energia divina!”.
Já a artista plástica Miska Tomé mandou uma mensagem de positividade sobre as partidas. “A vida continua no plano espiritual e, mais do que tudo, a missão cumprida com maestria e o amor da família e dos amigos é combustível para a cura espiritual! Força a todos! Estamos juntos na corrente de amor”, disse.
Responsável pelo documentário ‘A Campo Grande de Roberto Higa’, a cineasta Marineti Pinheiro disse ser “muito difícil comentar” sobre a notícia. O curta, em parceria com a Israel Miranda, foi lançado em fevereiro deste ano e acompanhou o fotojornalista durante um ano, em casa e em diferentes espaços da cidade, com registros da rotina, memórias e reflexões.
“Quando a gente aprovou o projeto do filme que dirigi com Israel, ele recém havia descoberto o câncer. Ele está muito frágil, inclusive fisicamente; na época em que gravamos, ele estava bem”, recorda a cineasta.
O fotojornalista Nilson Figueiredo, aqui do Jornal O Estado, é amigo há mais de 40 anos de Roberto Higa. Companheiro de histórias, causos e lentes, ele diz que falar de Higa é fácil.
“Conheci o Higa há muitos anos e aprendi muito com ele na área da fotografia. Trabalhei com ele também durante muito tempo, super profissional sempre; na época éramos mais jovens. Nunca estamos preparados para nada e, para mim, essa notícia foi uma surpresa. Infelizmente temos que passar por isso, mas nunca estamos preparados”, revelou.
“Ele vai deixar um legado muito valioso. Higa retratou os dois estados, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, e conta a história dos dois por meio de suas fotos. Ele registrou coisas que ninguém fez, vai deixar um grande legado da história de Campo Grande e de Mato Grosso do Sul”, complementa.
“Eu quero mais”
Em fevereiro de 2025, Higa abriu a sua casa, junto à esposa Sandra, para uma entrevista ao jornal O Estado. A residência, que também é um museu, abriga artefatos, pinturas, esculturas e coleções de moedas e cédulas de diversos países, elementos que marcaram a trajetória do fotojornalista. O espaço, dividido em setores, guarda um acervo pessoal de mais de 10 mil fotos, organizadas por ano, desde o início da carreira de Higa até o presente. Sandra compartilhou que está atualmente organizando o acervo e já separou as fotos de 1995, com planos de seguir até 2006, quando a era digital passou a dominar a fotografia.
Na entrevista, ele recordou sua trajetória na fotografia e suas passagens pelos mais variados veículos de imprensa do Estado, além de ter registrado o cenário político ao trabalhar junto ao Governo do Estado.
“Ser fotógrafo não se limita a fotografar apenas as coisas bonitas. No interior, você não tem a oportunidade de dar uma primeira página como um grande jornal. Você acaba ‘enchendo linguiça’ com o que tem. Então, eu fotografava mulher bonita, mulher feia, cenas tristes, cenas alegres – tudo isso eu coloquei na cabeça e comecei a fazer. Esse foi meu diferencial, deixar minha marca em tudo que fazia”, destacou na época.
Higa estava debilitado após passar por diversos problemas de saúde ao longo dos anos, como pancreatite, dois AVCs, um aneurisma e os diagnósticos de Alzheimer e câncer de orofaringe. “Quando você recebe o diagnóstico, é um choque. A primeira pergunta é: ‘Por que eu?’. Depois, com o tempo, você percebe que a coisa não é tão feia assim”, reflete.
Além das fotos, Higa foi responsável por fundar o bloco de Carnaval ‘As Depravadas’, especialmente para os profissionais da comunicação, que todo ano marca presença na Rua Barão do Rio Branco, centro de Campo Grande, mais precisamente no tradicional Bar do Zé.
Documentário
O documentário assume como fio condutor algumas de suas imagens mais representativas, como o registro da demolição do antigo relógio da Rua 14, captado ao longo de um dia e uma noite inteiros, e fotografias que revelam infâncias à margem do rio, cenas de vulnerabilidade e momentos decisivos da formação do Estado.
A obra também resgata acontecimentos históricos, como a criação de Mato Grosso do Sul, além de retratos de personalidades e espaços que moldaram a identidade regional. Higa transitou por diferentes realidades: frequentou ambientes da elite política e econômica, acompanhou o crescimento urbano, registrou o surgimento de bairros populares como as Moreninhas e documentou áreas institucionais como o Parque dos Poderes. Sua câmera esteve tanto nos salões mais influentes quanto nas periferias invisibilizadas.
“Eu quis ouvir as histórias por trás de cada fotografia, entender o que estava além do enquadramento. Ele não apenas registrou a cidade, ele viveu cada momento, circulou por todos os espaços, das áreas mais nobres às periferias. Essas imagens ajudam a compreender como a cidade se transformou e como ele se tornou parte dessa própria história”, conta Marineti para a reportagem do Jornal O Estado.
Por Carolina Rampi e Amanda Ferreira